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Minha clínica não é neutra

  • lupsijung
  • 9 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura
  • Introdução


Todo mundo deve conhecer o mito de que a clínica psicológica deve ser neutra. Na realidade, essa indicação significa dizer que nós, psis, não devemos deixar que nossa realidade psíquica subjugue a realidade psíquica de quem atendemos. Tal fato vale para diferentes circunstâncias, como escolhas profissionais, vivências religiosas e afinidades com partidos políticos. No entanto, a neutralidade clínica não significa que devamos subtrair a nossa realidade psíquica, apenas não impô-la a quem atendemos.


  • Desenvolvimento


É impossível sustentar uma clínica, sobretudo em Psicologia Profunda, como é o meu caso com a Psicologia Analítica, é impossível sustentar essa clínica com uma subtração da minha realidade psíquica. Esse fato se dá pelo fato de que tanto eu, enquanto profissional, quanto a pessoa que estou atendendo estamos imersos em uma sociedade que é formada por aspectos históricos, políticos e culturais que nos atravessam a cada minuto. Uma vez que o consultório psicológico é um dispositivo alocado em algum tempo e espaço, ele deve dialogar com os aspectos inerentes a estes dois condicionantes.

Além disso, trazendo o foco para uma perspectiva ainda mais pessoal, meu trabalho clínico é baseado tanto na Psicologia Analítica quanto na terapêutica da Dra. Nise da Silveira, duas práticas profissionais que, para além de outros pontos de encontro, também concordam com a perspectiva de que todo e qualquer indivíduo deve ser visto como alguém em sociedade, e não isolado desta.

Um dos pilares centrais da Psicologia Analítica é o conceito de Processo de Individuação, a partir do qual se entende que todo sujeito caminha, de forma consciente e/ou inconsciente, na direção de si mesmo. No Processo de Individuação Lato Sensu, temos reações inconscientes aos movimentos da consciência; e no Stricto Sensu, há uma busca consciente de encontro e confronto com os conteúdos inconsciente, há uma disponibilidade ética também de se deparar com o desconhecido em si.

Em ambos os casos, a grande sacada de entendimento está no entendimento de que quanto mais nos aproximamos de nós (nossos conteúdos inconscientes chegam à consciência e temos a oportunidade de fazer algo consciente com eles), mais nos aproximamos da coletividade, porque entendemos que não há experiência tão única a ponto de não ser compartilhada, mesmo que em alguma parte, com outras pessoas. Porque entendemos que, ganhando mais consciência diante daquilo que atua em nós, ganhamos mais possibilidade de agir de forma, verdadeiramente, autônoma - sem risco de nos enganarmos a nós mesmas/os/es. Toda a ideia da Psicologia Analítica, então, recai sobre o entendimento de que o trabalho com o indivíduo só faz sentido porque este é um ser social.

Com relação à Dra. Nise, ela foi uma das maiores psiquiatras do Brasil e do mundo. Pioneira na luta antimanicomial, recusou-se a participar de ditos tratamentos de sua época, como eletrochoque e coma insulínico. Tendo pedido exoneração, foi transferida para o setor de Terapia Ocupacional, onde revolucionou o tratamento psiquiátrico, integrando as artes ao cuidado em saúde mental.

Nise trabalhou no Engenho de Dentro, fazendo história ao humanizar o tratamento de pessoas, em sua enorme maioria, negras e pobres. Nise levou as pinturas de seus clientes a diversas exposições, incluindo a que ocorreu em 1957 em Zurique, no II Congresso Internacional de Psiquiatria, a convite de Jung, fundador principal da Psicologia Analítica.

O legado de Nise cresce cada vez mais, e tanto o Museu de Imagens do Inconsciente, criado por ela em 1952, quanto a Casa das Palmeiras (onde estagiei), criada por ela em 1956, existem até hoje. O primeiro com um foco enorme na Museologia e na pesquisa em Saúde Mental, e a segunda como uma espécie de CAPS inicial, com regime de externato, com janelas e portas sempre abertas.


  • Conclusão

Princípios Fundamentais do Código de Ética da Psicologia
Princípios Fundamentais do Código de Ética da Psicologia

Sendo assim, seguindo os passos tanto da Psicologia Analítica quanto da Dra. Nise, para além do Código de Ética da Psicologia, entendo que não é possível atuar em uma clínica neutra, tendo em vista que esta seria vazia. Vazia de sentido e vazia de emoções.

Para sustentar minha clínica com todos os atravessamentos histórico culturais que existem em diferentes sociedades, e tendo em vista que atendo pessoas de diferentes lugares do país, além daquelas em outros países, procuro me manter, constantemente, atualizada sobre assuntos contemporâneos e históricos de diferentes territórios. Os estudos de gênero e de sexualidade são meus maiores interesses, mas o entendimento de que vivemos em uma sociedade que funciona sob o sistema capitalista, que, por sua vez, é baseado na manutenção de diferentes classes sociais, onde a imensa maioria da população é, material e subjetivamente, esmagada por uma minoria riquíssima privilegiada, está sempre como pano de fundo de cada atendimento que faço.

 
 
 

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